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2011 / Um ano em canções
A história do meu ano em 12 canções.
Feliz 2012.
2011 / Um ano em canções
A história do meu ano em 12 canções.
Feliz 2012.
2011 / Um ano em filmes
Mais um ano atípico: segundo as minhas contas, vi mais coisa menos coisa 215 filmes em 2011. Não fossem dois meses, abril e maio, em que a média foi de 50 filmes mensais (semanas em que a fotografia esteve em pousio), e este total seria menos excessivo. Serei mais breve do que no balanço anterior: três destaques positivos, três negativos.
Que dois dos meus três melhores filmes deste ano sejam portugueses espanta-me, claro. Não que tenha o cinema nacional em má conta, mas Sangue do Meu Sangue (2011) [65], de João Canijo, e 48 (2009), de Susana de Sousa Dias, estão a anos-luz do resto que vi e competem numa liga à parte. 48, em particular, foi a experiência mais radical de 2011: com recurso quase exclusivo a fotografias, sem nenhum movimento que não seja o da voz em off dos próprios torturados, de que a realizadora preserva ainda os ruídos do quotidiano (o trânsito, a natureza…), e ao fade-in/out, é perfeito para quem ainda acha que sacar filmes e ver em casa se compara à experiência transcendente da sala de cinema.
O terceiro é Flooding with Love for the Kid (2010), de Zachary Oberzan. A sinopse desta experiência seria razão de sobra para fugir dele como o Diabo da cruz, não fosse Oberzan membro dos Nature Theater of Oklahoma. Flooding… adapta o romance First Blood, de David Morrell (anteriormente transposto ao ecrã como Rambo), sendo escrito, produzido, realizado, interpretado, filmado e montado por um só homem (o próprio Zachary) no seu apartamento, com um orçamento de 96 dólares. No papel, pareceria uma homenagem ingénua. ultrapassada, às brincadeiras da nossa infância: os helicópteros são cadeiras com ventoinhas, as grutas do Kentucky o frigorífico, a dispensa a esquadra da polícia, e assim por diante. Que seja muitíssimo mais do que um filme do YouTube com duas horas é um pequeno milagre, prova de que ainda há lugar para a inconsciência e a espontaneidade num mundo hipercalculado.
Por falar em hipercalculismo, os três piores filmes que vi em 2011 padeciam desse síndrome: Brownian Movement (2010), de Nanouk Leopold, Les amours imaginaires (2010), de Xavier Dolan, e Drive (2011) [82], de Nicolas Winding Refn. Representam o que abomino no cinema contemporâneo: estilo, só estilo e nada mais do que estilo, so help them God. Repletos de silêncios frivolos, ufanos da sua montagem espertalhona, sempre prontos para sacar a emoção fácil, só conhecem um recurso para disfarçar o vazio de ideias: copy/paste. No primeiro, tive direito a um senhor de 70 anos que, quatro filas atrás de mim, lia as legendas à esposa, porque ela se esquecera dos óculos (e ele calava-se nas frequentes cenas de sexo). Não tive tanta sorte com os restantes. Espero que a História do cinema os tenha em seu eterno descanso.
2011 / Um ano em livros
Tenho mais que fazer que compilar uma lista completa do que li, mas todos adoramos balanços. Deixo uns destaques, em jeito de rascunho mais meu do que para leitura alheia.
Dois mil e onze foi um ano atípico nas minhas leituras, pois li um único romance de ficção científica: Anathem (2008), de Neal Stephenson, um catrapázio de mil páginas que doeu como se tivesse quatro mil. Se esperava encontrar algo fulgurante como The Diamond Age, também da sua autoria, espalhei-me ao comprido. Espero no próximo ano reconciliar-me com o género.
Na ficção nacional contemporânea, por obrigação profissional (e tento abstrair-me disso nesta lista, para não a enviesar), lá dei uma oportunidade a O filho de mil homens (2011), de Valter Hugo Mãe agora-com-maiúsculas-que-já-sou-um-escritor-com-pelos-no-peito. É melhor esquecer esta história choradinha, que faria corar de vergonha um aluno de Escrita Criativa.
Na não-ficção, li quase de uma penada Salazar: Uma biografia política (2010), de Filipe Ribeiro de Meneses. Estava receoso de ser uma daquelas biografias monumentais que vão à cor das cuecas do ditador. Felizmente o subtítulo corresponde ao miolo; pena é que a Dom Quixote deixe passar uma revisão daquele calibre. Off with the proofreader’s head.
Ainda na não-ficção, O Tesouro Escondido: Para uma arte da procura interior (2011), de José Tolentino Mendonça. Abstenho-me de comentar as obras dele: a religião é o meu assunto tabu. Limito-me a citar esta passagem: «A Fé desinstala-nos para vivermos na dependência de Deus. Não há parques de estacionamento espirituais. Há sim a chamada ininterrupta a experimentar a itinerância de uma Promessa que é maior do que nós.»
Deus sabe como estou completamente distante da literatura de língua alemã, uma das razões pelas quais não vou à bola com Gonçalo M. Tavares. Este ano marcou a minha primeira incursão nas letras germânicas, e resolvi atirar para cima, que é para onde se atira quando não se sabe em que terreno se caça. Janeiro arrancou com Fausto (1808/1832), de Goethe, na tradução rimada de João Barrento. Mal sobrevivi à celebérrima Segunda Parte, pelo que talvez lá volte daqui a uns anos, se Mefistófeles assim quiser. Sorte diferente teve Extinção: Uma derrocada (1986), do austríaco Thomas Bernhard. Em quinhentas páginas — com dois parágrafos de 250 páginas cada —, compreendi o ódio que os seus conterrâneos têm por ele. Eu também não quereria ter como escritor nacional esta avalancha de bílis, exceto se escrevesse como escreve. Assombro.
Na poesia, houve tempo para uma releitura. Uma amiga devolveu-mo passados quatro anos: Helen in Egypt (1961), de H. D. [61 e 71]. Não consigo verbalizar o que sinto por um livro que me acompanha e continuará a acompanhar por muitos anos. Antes disso, foi numa viagem de comboio ao Porto, em abril, que descobri Louise Glück, poeta laureada dos EUA. Não posso dizer que The First Five Books of Poems (1997) [32 e 60] seja bom: por vezes, em poemas sempre minimalistas, Glück cai num confessionalismo de pechisbeque que não a ajuda nada. («Marathon», o mais longo da coletânea, é o seu melhor texto, e talvez seja precisamente pela sua extensão atípica.) E revisitei Adrienne Rich, uma das vozes da minha família poética, com o seu último livro, Tonight No Poetry Will Serve. Poems 2007–2010 (2011) [75]. Mesmo o mais fraco dos livros de Rich, que é o caso, é melhor que quase toda a poesia publicada hoje em Portugal.
Bem, estes são apenas destaques, positivos e negativos, do que li. All things considered, o que levo comigo deste ano?
What Maisie Knew (1897) [13] foi o meu doce jamesiano. (Um dia terei lido toda a obra dele.) História do mais complicado dos divórcios, contada pela consciência da criança que tem de viver no meio da salgalhada de pais, padrastos e madrastas que se apaixonam todos uns pelos outros: «the little girl [was] disposed of in a manner worthy of the judgement-seat of Solomon. She was divided in two and the portions tossed impartially to the disputants. They would take her, in rotation, for six months at a time; she would spend half the year with each.» O cinismo de James tem sempre estilo.
Claro que o século XIX será sempre a minha morada de conforto. De Anthony Trollope só lera, há dois anos, The Eustace Diamonds, e a ele regressei este ano, ao último volume das Crónicas de Barsetshire: The Last Chronicle of Barset (1867) [85]. Foi quem me acompanhou durante o mês em trânsito pela Europa, entre agosto e setembro. Sendo o último volume da saga e não tendo eu lido os outros, pode parecer idiota começar pelo fim. Foi indiferente: gozei o pratinho vitoriano de juras de casamento, cheques roubados e arcebispos destemidos até ao fim. A ele voltarei em 2012.
Já deste século, o ensaio Poetry and Commitment (2007), de Adrienne Rich, fica como a declaração última do que é a poesia para mim: não é aromaterapia nem massagem tântrica tailandesa. Vá lá, não estou sozinho. Deveria ser leitura obrigatória para os colunistas da nossa imprensa, apostados que estão em incensar os poetisos e poetisas que vão destilando as suas águas de colónia serôdias.
Por fim, Os Meninos de Ouro (1983) [76, 77, 78, 79, 80 e 83]. Por todas as razões, e mais a Agustina, claro.
«— Uma palavra faz muitas vezes diferença.
— É, não é? Basta um breve sim ou não. Diz-se um não quando se quer dizer um sim, já não há uma segunda oportunidade, e que diferença pode fazer entre a esperança mais cintilante e a desolação! Ou pior ainda, diz-se um sim quando se deve dizer um não, quando o interlocutor sabe que deve ser não. Que diferença faz esse não! Se se pensar nisso, perguntar-nos-emos se uma mulher deveria dizer outra coisa que não.
— Jamais me disseram outra palavra — confessou Johnny.
— Não acredito. Atrevo-me a dizer que, na verdade, jamais o perguntou a alguém.»
// Anthony Trollope, The Last Chronicle of Barset, 1867 (versão minha).