IndieLisboa 2012 / 8

Houve dois livros que marcaram a minha adolescência de tal modo, que por mais que queira não os consigo reler por medo. Nunca me desfiz deles, nunca saíram de perto. O primeiro foi Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio: lá permanece na mesa de cabeceira desde os meus 15 anos, com as páginas meio amarelecidas. Ando desde janeiro a ler a obra completa de Nemésio, como que a preparar-me para reencontrar Margarida Clark Dulmo. O outro é Wuthering Heights, de Emily Brontë, o óvni da literatura inglesa.
Por ter vivido no Norte de Inglaterra e percorrido os moors do Yorkshire, a sua geografia é-me mais emocional. Dele vi duas adaptações: uma estucha de 1992 com Juliette Binoche e Ralph Fiennes; e Abismos de pasión (1954), de Buñuel, coisa excessiva e barroca que transplanta a história de amor e fantasmas para o deserto do México. Esta revisitação assinada por Andrea Arnold não é perfeita, ainda que nem sequer lhes seja equivalente. Primeiro: é demasiado longa. Segundo: James Howson e Kaya Scodelario, que representam Catherine e Heathcliff em adultos, são pífios quando comparados com os atores da primeira secção.
Mas Arnold arrisca, arrisca muito, tanto que, quando acerta, acerta em grande. Não havia visto adaptação tão primeva, tão fatídica, tão obcecada. Do romance fica só o osso: a paixão letal de dois irmãos por afinidade, a infância como El Dorado irrecuperável, o passado e o passado e o passado. Não há espaço para fantasmas que não esse fantasma, o que justifica em pleno o facto de o argumento descartar a segunda parte do romance, com Cathy Linton (nem senti essa ausência, o que é meritório). De facto, pouco interessa aqui o ângulo gótico e espectral: Yorkshire é visceral, cheia de lama, lama por toda a parte, tudo é sujo, feroz instinto, morte e entranhas.
E passado. Só o passado, nada mais que o passado. So help them God.
// Wuthering Heights, Andrea Arnold, 2011.