Menencório

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IndieLisboa 2012 / 9

Imaginemos a realizadora a passear pelo bairro da Luz Vermelha de Amesterdão e a encontrar duas gémeas de 70 anos, que por acaso ainda andam na vida. Isto dava um filme, pensou ela com os seus botões. Dar, até dava. O que poderia ser um documento social sobre a prostituição na Holanda, mesmo que disfarçado de biografia, é uma daquelas piadas de dois minutos que demoram mais de uma hora a serem contadas. Cinema? Nicles de bitocles.

 

 

 
// Ouwehoeren, Gabrielle Provaas, 2011.

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IndieLisboa 2012 / 8

Houve dois livros que marcaram a minha adolescência de tal modo, que por mais que queira não os consigo reler por medo. Nunca me desfiz deles, nunca saíram de perto. O primeiro foi Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio: lá permanece na mesa de cabeceira desde os meus 15 anos, com as páginas meio amarelecidas. Ando desde janeiro a ler a obra completa de Nemésio, como que a preparar-me para reencontrar Margarida Clark Dulmo. O outro é Wuthering Heights, de Emily Brontë, o óvni da literatura inglesa.

Por ter vivido no Norte de Inglaterra e percorrido os moors do Yorkshire, a sua geografia é-me mais emocional. Dele vi duas adaptações: uma estucha de 1992 com Juliette Binoche e Ralph Fiennes; e Abismos de pasión (1954), de Buñuel, coisa excessiva e barroca que transplanta a história de amor e fantasmas para o deserto do México. Esta revisitação assinada por Andrea Arnold não é perfeita, ainda que nem sequer lhes seja equivalente. Primeiro: é demasiado longa. Segundo: James Howson e Kaya Scodelario, que representam Catherine e Heathcliff em adultos, são pífios quando comparados com os atores da primeira secção.

Mas Arnold arrisca, arrisca muito, tanto que, quando acerta, acerta em grande. Não havia visto adaptação tão primeva, tão fatídica, tão obcecada. Do romance fica só o osso: a paixão letal de dois irmãos por afinidade, a infância como El Dorado irrecuperável, o passado e o passado e o passado. Não há espaço para fantasmas que não esse fantasma, o que justifica em pleno o facto de o argumento descartar a segunda parte do romance, com Cathy Linton (nem senti essa ausência, o que é meritório). De facto, pouco interessa aqui o ângulo gótico e espectral: Yorkshire é visceral, cheia de lama, lama por toda a parte, tudo é sujo, feroz instinto, morte e entranhas.

E passado. Só o passado, nada mais que o passado. So help them God.
 

 

 
// Wuthering Heights, Andrea Arnold, 2011.

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IndieLisboa 2012 / 7

Um dos tiques mais irritantes do cinema dos últimos dez, quinze anos é o abuso do twist, a revelação descarada que vira o filme de pernas prò ar, a mais das vezes sem nenhum propósito que não seja o da surpresa pela surpresa. (Só por tê-lo tornado moeda corrente M. Night Shyamalan deveria ser condenado à danação eterna.)

L’enfant d’en haut é o relato da vida de um par de perdidos que habitam um vale com vista para uma estância de esqui: Simon gasta os dias a roubar turistas incautos para pôr comida na mesa; Louise, desempregada, deixa que seja a vida a passar por ela. Até aqui, esta história de dois irmãos desavindos numa Suíça sem chocolates nem relógios parece dever bastante aos irmãos Dardenne, a comparação que mais ouvi à saída da sala. Mas Ursula Meier também tira uma carta da manga; quando ocorre a revelação decisiva, numa viagem de carro completamente anódina, ainda o filme vai a meio. O timing é inteligentíssimo. Sem créditos finais que nos valham para nos fazer sair da sala, resta-nos investir emocionalmente nestas duas personagens. Chegados à sequência final, entre dois teleféricos (bela, tão bela), é preciso que Meier a corte abruptamente para nos obrigar a abandonar Simon à sua sorte. Sem rodriguinhos, com uma segurança espantosa, um dos grandes que vi no IndieLisboa deste ano.
 

 

 
// L’enfant d’en haut, Ursula Meier, 2012.

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IndieLisboa 2012 / 6

Nesta história de um incesto que pode ou não ter sido consumado, cosida com remendos de argumento mal alinhavados e uma mão-cheia de personagens por desenvolver, onde se agarra Sebastian Meise? Agarra-se onde pode, claro: aos silêncios fecundos, aos pedaços de diálogos que parecem ter ficado entre as várias versões do argumento, a um deus ex machina final que só pode convencer um caloiro do curso de Cinema. Pelo meio há amadorismo, e não é pouco, e umas cançonetas de Antony and the Johnsons a ver se disfarçam o deserto de ideias.

Meise, presente no debate final, revelou que foi aluno de Haneke, «pai do cinema austríaco contemporâneo». Fica a vontade de saber que faria o mestre com isto. O que Meise fez, sabemos nós: para citar O’Neill, uma coisa em forma de assim. Meh.

 

 

 
// Stillleben, Sebastian Meise, 2011.