2012 / Um ano em livros

Se descontasse o que tive de ler profissionalmente (e foi muito, muito mesmo!), ficaria triste: não tive nem tempo nem cabeça para as minhas explorações literárias. Maior desgraça ainda, em 2012 a poesia ficou pelo caminho. Do mal o menos, pois ainda consegui visitar no final do ano a Inglaterra vitoriana com Can You Forgive Her? (1864–1865), de Anthony Trollope, e Armadale (1866), de Wilkie Collins. É verdade que tendo a não ler autores que não estejam mortos (porque os vivos já me chateiam o quotidiano que chegue), mas houve uma exceção, e das grandes.

Quando o filho de Ora regressa a casa depois de anos no serviço militar israelita, a alegria materna só dura uns dias. Offer resolve oferecer-se como voluntário na Operação Escudo Defensivo, no âmbito da Segunda Intifada. Temendo receber a notícia da morte de Offer no operação, Ora toma uma decisão incompreensível para todos: sair de casa (de modo a evitar receber a notificação fatídica, que pode nunca chegar) e caminhar até onde o país acabar. Nesta peregrinação, que ocupa a quase totalidade do livro, Grossman, em inúmeros flashbacks que se entrecruzam, conta a história de Ora, desde a adolescência num reformatório, à sombra da Guerra dos Seis Dias (1967). Seria fácil ver em Ora o símbolo de uma nação e de um povo, em Até ao Fim da Terra (אישה בורחת מבשורה / Isha Borahat MiBesora, 2008), de David Grossman a epopeia de Israel. Fácil e pobre, claro: afinal, nós caminhamos, nós respiramos ao lado de Ora e esquecemo-nos de que é uma construção ficcional. Quando li as últimas páginas, e particularmente a nota final do autor, ofegante a caminho do escritório, nos idos de junho, já só me restava chorar, e foi o que fiz, em pleno Cais do Sodré. Foi o meu livro do ano.

2012 / Um ano em filmes

Trabalho, trabalho, trabalho: ao contrário do anterior, o ano que passou foi pobrezito. Conto 76 filmes e excetuo  revisionamentos. Pensando melhor, talvez ande a ver menos, mas a rever mais… sobretudo cinema clássico, sintoma de que o que anda pelas salas nacionais não me enche as medidas por aí além. E não ando com inspiração suficiente para escrever seja sobre o que for.

Ainda assim, em jeito de memorando de 2012, o meu top 3 de 2012, para filmes estreados em sala, seria mais ou menos assim: Amour (2012), de Michael Haneke; The Color Wheel (2011), de Alex Ross Perry; e L’enfant d’en haut (2012), de Ursula Meier. Só não escrevi sobre o primeiro aqui no blogue, e a falta de tempo não foi desculpa. Entramos na casa de Georges e Anne nos primeiros planos, e dela não voltei a sair. Nada escreverei.

Fora 2012, há ainda outros com direito a destaque. As freiras possuídas de Matka Joanna od Aniołów (1961), de Jerzy Kawalerowicz, foram as estrelas da sequência mais memorável do meu ano; Cowards Bend the Knee or The Blue Hands (1995), de Guy Maddin (e como amo Maddin mais e mais a cada filme) leva a palma de mamadice; e Safe (1995), de Todd Haynes, visto logo a abrir o ano, numa viagem de comboio, traduziu como nenhum outro filme a minha alienação do século XXI. Prossegui ainda a minha odisseia sirkiana, com o festival de cor de Written on the Wind (1956) e a visitação do Fantasma do Futuro, já com o ano mesmo a fechar, em There’s Always Tomorrow (1956).

Restam-me ainda três desilusões. The Dark Knight Rises (2012), de Christopher Nolan, é um monumento à má montagem que enterra a saga do Batman em três horas de tédio. Quanto a Cosmopolis (2012), de David Cronenberg, raras vezes tão poucos bons atores produziram coisinha pós-moderneca tão ruim. Sobre Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson, já escrevi que bastasse. Que Deus me livre e guarde deles todos.

 

 

 

/ Imagem: Matka Joanna od Aniołów (1961), de Jerzy Kawalerowicz.

Um dia aqui, outro ali, há quase um ano que não tenho férias, adiante, carga e transportes, comecei 2012 com um grupo de pessoas, não olhar para trás para não me acontecer como à mulher de Lot, nem uma a mais nem uma a menos, termino-o exatamente com quem quero, e assim me despeço de um ano inglório (excetuo os últimos três meses, et pour cause) esquecendo a vida em alta definição, bagagem de seis rolos e uma máquina descartável expirada em 2005, oh boy!, não sei por onde andarei à meia-noite de 31 de dezembro, pouco importa, como diz a outra na canção, o que afirmei um ano a surdos, when you see a wall, I see a door, onde toda a gente vê paredes, vejo portas e janelas, que fique em 2012 quem quer, que eu vou ali a 2013 e não volto.

Chamou-me «assertivo» sem me conhecer, o que me levou a responder de imediato: «Ninguém usa a palavra “assertivo” impunemente.» So it goes. Três meses de silêncios e perplexidades: cúmplices na loucura, mas tão lúcidos na certeza.

5 / I remain, Sir, your faithful and obedient servant,
 

«I go where I love and where I am loved,
into the snow;

I go to the things I love
with no thought of duty or pity»
 

 

 
// H. D., The Flowering of the Rod, 1946

Depois de se conhecer Bruxelas e a Bélgica, só podemos ficar otimistas: se aquela nação ficcionada, aquela gente desagradável e uma capital que é um erro conseguem formar uma nação de êxito, nós só podemos conseguir. Era o que faltava.

João Carlos não acha graça, diz: merda de pátria, azar ter caído aqui, ninguém nem nada me consola, desastre de ter tomado o comboio errado, em descensão há séculos, apodrecido por dentro, por fora velho cagado, arrumado em ramal fechado, atacado da demência do passado, mantido em vida por extremo artifício, tresanda a bafio, a morte, a melancolia inglória. Malta tresmalhada em apatia, em desespero sufocada, resignação desconsolada, cansada de outroras glórias exageradas agora pela memória, desgraçada, fácil de comentar a postas de bacalhau, apostas de totobola, lotaria que anda amanhã à roda, frouxa malta, de genica falta, de energia fraca, molengona fantasia e imaginação que mais não dão senão para contar piadas, inventar anedotas, amargas, alarves, palavreado político, calúnia, vigarice. Embebida em estereofonia para esquecer isto, escuto canção que me faz sentir canto, não quem canta, nem instrumento apto a provocar tremores-de-terra na terra tua e minha, capaz de dar conosco em pataratas, única decente saída desde buraco onde nos afundámos, ou nos deixámos afundar, tu grande Planador acompanhado da pequena Maconhesa que contigo embarca nesta nave de loucos, isolada do mundo e à deriva, cortadas as amarras, os contactos com a «realidade»? A isto chamam país? Mero flatus vocis, mania quase mansa mas que custou já milhares de mortos em África? Não há safa? O exílio no reino? O reino do exílio? Resisto, resistes, gageiro, acima, acima, o que fores tenha gosto de grandeza, seja fogo e luz e lava, vulcão e canto vulcantemente seja e se alce e erga e chegue aos teus máximos mastros, vê se vês terra diferente entre o estrume e os astros e galáxias que, indiferentes, nos fazem, desfazem, contemplam lá do alto das esferas geladas. A pacífica dança do incenso barato arde ao canto do quarto, leva-me a meditar na resplendente matéria, enche-me de veneração pelo poder da imagem, pelo desejo predisposto a tudo ter, tudo ser, apetecente de todos os projectos maiores que nós mesmos, mesmo daqueles destinados ao fracasso, luta pela suprema sobrevivência, libertação da prisão onde nos metemos, prendemos, vigiamos, espiamos, torturamos, desterramos, enterramos, enganamos, matamos. Sem regresso, sem remédio? Olhar vorazmente em frente, a fim de não me suceder como à mulher de Lot. Concordas. Sou signo do Leão, tu touro, ambos de patas postas sobre o peso do solo. Se por vezes voamos é para ver mais longe outro cenário. Este não presta. Isto é poço onde pouco se passa e esse se passa sem ninguém dar por nada. Basta.

«Tempo de gente cortada.»

13-4-74

 

 

 

// Almeida Faria, Cortes. 3.ª edição. Lisboa, Caminho: 1986 (1978), 189-191.

Foi preciso encerrar, sem grande alarido, o meu período de crise espiritual para arrancar, em mês e meio, com a minha própria política de austeridade: cortar na velhacaria, reduzir as chatices, investir nos amigos. E escusam de vir com as falinhas mansas do Seguro. Tornei-me um Gaspar indómito e obstinado, nas piores horas um Fernando Ulrich comezinho: ó meus caros, ai aguentam aguentam.